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Blog da Catraia

que, na realidade, agora são duas... Uma Catraia minhota de coração, lisboeta por obrigação, juntou-se à primeira, nortenha de berço e coração para, juntas - YUPI! - partilharem um blog:)

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Gambia, uma viagem diferente

Foi em 2015 que viajamos para a Gambia. Queríamos um destino diferente, único na paisagem e na cultura, e foi isso que encontramos!

Fomos os primeiros portugueses a ficar hospedados naquele hotel e segundo o consulado português, dos poucos que se aventuraram na “Costa dos Sorrisos”.

 

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Como era época baixa fomos mais notados pelo staff do hotel - Lemon Creek Hotel Resort - que, desde o primeiro dia, nos tratava pelo primeiro nome com um carinho que não vamos esquecer e nos diziam que éramos "diferentes dos outros brancos", explicando que não sabiam que os “brancos” poderiam ser tão simpáticos e acessíveis. 

As histórias e memórias que trouxemos connosco foram tantas e tão únicas que é difícil escolher, mas diria que há uma que nos marcou.

Conhecemos no primeiro dia o Mr. Musik (na Gambia todos têm uma alcunha pela qual gostam de ser tratados), o nosso vendedor de sumos naturais na praia, um rapaz de 26 anos com uma simpatia cativante e genuína, que partilhava a sua barraquinha com os colegas. Eram normalmente cinco, sentados debaixo dos guarda-sois todo o dia a ouvir música e a preparar sumos a pedido. O mais curioso é que não havia concorrência desleal entre eles, nem tão pouco chateavam os turistas, ali o primeiro a falar connosco era o nosso contacto, mais ninguém nos abordava. Ah! E os sumos eram preparados com todos os cuidados para não fazerem mal aos turistas. Tal como o Mr. Musik nos explicou, todos os que trabalham na praia tiveram uma formação de uma associação europeia para aprenderem a fazer os sumos apenas com fruta, não misturando água, para que os turistas pudessem beber sem problemas.

Quase no final da semana de férias, e depois de algumas tardes bem passadas com o grupo dos sumos na conversa, recebemos o melhor dos convites. Estávamos a sair da água, depois de uns mergulhos maravilhosos naquelas águas estranhamente calmas e quentes (olhar para um mar - Atlântico - com uma cor parecida com o nosso e perceber que está a 26º é uma sensação maravilhosa), quando o grupo nos chamou e nos convidou para partilhar uma refeição com eles, ali, na praia. Ficamos sem jeito, mas percebemos que não podíamos recusar. 

A refeição foi trazida por dois miúdos, num enorme prato de barro à cabeça cheio de arroz, peixe fresco assado e cabaça (uma raiz típica do país diferente de tudo o que tínhamos comido).

Nunca me vou esquecer do momento em que se pousou o grande prato de barro em cima de uma caixa de madeira e nos aninhámos todos na areia da praia para almoçar. Todos iguais, nós - "os brancos diferentes dos outros", e eles, que nos ensinaram a enrolar o arroz apenas com uma mão, a misturar o peixe e a cabaça e a temperar na hora com sumo de limão.

Foi a melhor refeição que fizemos na Gambia! E não voltamos às espreguiçadeiras sem beber um chá verde cuidadosamente preparado na hora - o bule aquece a água em cima de um pequenino fogareiro até ferver, depois é adicionado o chá verde e passados uns minutos, o chá é vertido de um copo para o outro durante uns minutos (que segundo o Amed, que nos preparou o chá, pode ir até meia hora) até ganhar uma espuma que faz quase lembrar o café. 
No último dia, e em jeito de agradecimento pela simpatia com que fomos acolhidos, quisemos fazer-lhes também uma surpresa e dar um bocadinho daquilo que tínhamos.

Percebemos naquela semana que há duas paixões na Gambia - o futebol e a música. E aquele grupo que tão bem nos acolheu adorava ouvir música enquanto alegremente preparavam sumos para os turistas. Aliás, durante a nossa refeição, a música não faltou, vinda de um telemóvel (com um volume de som limitado, claro). Foi ao pensar nisso que percebemos que tínhamos connosco a melhor surpresa que poderíamos dar - a coluna bluetooth que tínhamos levado connosco.

Quando chegamos à praia e lhes oferecemos a coluna, os olhos do grupo iluminaram-se. Não queriam acreditar! Já iam poder ouvir música "a sério" e, assim, podiam dar mais vida ao negócio no Verão, disseram logo. 

Nessa tarde, tiramos uma fotografia todos juntos para memória futura e trocamos contactos. 

Nunca mais vou esquecer a lição de vida de quem tinha tão pouco, mas partilhou tudo o que tinha com todo o prazer e sem esperar nada em troca.